Em meados do século XIX, os jornais teatrais, ligados a empresários das diferentes salas, contribuiam para o culto dos artistas, dando publicidade aos hábitos e maneiras de vestir dos artistas e sobretudo das actrizes, que ficavam assim investidos da responsabilidade de encarar o imaginário de uma burguesia citadina.
Este fenómeno, tinha aliás, repercursões sobre a própria produção dramática condicionando os autores a escrever expressamente para determinados actores. Garrett criara Emília das Neves, a heroina da sua inacabada Inês de Castro e A Sobrinha do Marquês, destinara-lhe também a madalena do Frei Luís de Sousa, que aliás a actris nunca teria a oportunidade de representar. um outro dramaturgo Biester nos anos cinquenta, produzia especialmente para a actriz Maria Adelaide.
Alguns literatos escreviam biografias consagratórias de actores, daí recolhendo para si o brilho mundano, particularmente o círculo do Teatro do São Carlos. Nos anos quarenta, as disputas prlas cantoras favoritas constituiam uma prática indissociável da frequência daquele teatro.
Nos outros teatros que não o do S.Carlos, praticava-se um culto aos artistas semelhante que também provocava polémicas, como quando, em 1849, o público do Teatro D. Fernando e D. Maria II se dividiram entre a idolatria pela Emília das Neves e pela Soller, cada uma das actrizes à cabeça de um e de outro teatro.
Estas manifestaç~pes de idolatria aos artista, que surgem documentadas na imprensa teatral da época, eram também uma forma dos espectadores se apropriarem da cena, fazendo o teatro funcionar enquanto espaço de uma convivencialidade mundana associada à exibição de pertença a uma elite.
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